já sou moça diferente
de que quando morri
só me desculpe porque não evoluí
renasci na volta de quando tivemos
aquele dia na praia da concha
com aquele vento todo,
ou talvez naquele dia do piquenique
no parque, sem comida, sem canga,
mas com aquele vento todo.

fui refém das malandragens
do tempo: ele é menos que
uma montanha alta de signos
incógnitos e mais como uma espiral
fina se estendendo ao infinito.

vou e volto em mim
antidialeticamente.
morro na noite
renasço no dia
antecedente.
sempre no mesmo pó
de cada instante
ressignificado e
decadente.

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poema velho provavelmente inacabado apesar do ponto final

prestai atenção nos verbos
no dedilhar surtado dos verbos
sobre as cordas infinitas do
                                                        vento.
palavras são feitas para
experienciar realidades torpes e
tocar nas retinas como essa luz lateral
e vos estalar os dedos como se
brincassem na praça à espera do ônibus
ou se entrassem no mar.

palavras devem de ser penduradas
nos tetos das varandas e
nos galhos das árvores
para vos
tocar
o corpo afora
fazendo silêncio para conversar.

pathos à revelia

pathos à revelia

acho que sou
muito mais vezes
os alicerces dessa casa
que o seu teto

não muito cabe coração aqui, choros e ruídos de subterrâneos e tempos esculpidos. é muito bem vindo, ao invés, ter as paredes bem levantadas e corredores bem arejados, bastante luz para espantar sombras e o murmurinho de uma voz incessante para tapar os buracos. 

dos pânicos noturnos, das intimidades sangradas: um imenso silêncio de palácios vazios.

a mímese, César, é só uma saudade

a mímese, César, é só uma saudade

a preguiça é o corpo andando mole
andando em círculos pela
                                      nudez
como uma ruela em alto declínio
para uma ascensão
o bicho nem chorou quando foi mordido
a ave nem se magoou quando caiu
nem a pedra com a rachadura —
reluziu tudo assim
nesse estado gorduroso
da preguiça

bolánio

espero conseguir
dormir com
essa sensa
ção
de que a
poesia
ainda corre
solta
feito uma louca
cospe fogo
labareda
das línguas coloridas de mel roxo
novo
usado e
regurgitado:
a arquitetura maneirista
a geomorfologia dos porcos
potência de esgarçar imagens
cuspir nas imagens
maltratar bem elas
, amem
amém.
espero
conseguir
dormir
com essa
sensa
ção
de
que
a poesia ainda é um bicho.

um mergulhador afogado
no olho de deus.

memória-mentira, memória-buraco, memória-escape, memória-desenho, memória-verso, memória-construção. memória espectro dessa certa esquizofrenia arrogante, uma invenção fragmentária e labiríntica, donde perde-se começo, meio e fim. memória exige do tempo a sua mais sincera unidade, presente é passado e futuro. é sempre um voltar-se sem sair do lugar. e talvez, nesse retornar, sejam então os fatos futuros que nos movam. memória é esse devir-vazio, preenche-se e transborda até estaca zero. ela pode ser meio suicida, tão como assassina. assim: perigo. perigo não é boa palavra pra ser usada adjetiva — é feita pra botar vida na ação, vestir autoria, ser potência de palavra substantiva. então memória é perigo, esse danado risonho. memória exige interlocução com o real pra fazer dele brincadeira, ficção ou bruxaria: expandindo-lhe dimensões, usurpando-lhe territórios. eu nasci em fukushima e vim para o brasil com dez anos de idade, vestido de soldadinho e soletrando os fonemas da tabuada do sete, emprestando aos tios uma entrada na migração e a minha saudade eterna de casa. eu já fui guarani juremeira de dedos longos e fumadora do catimbó, intermediária entre os nervos do rio e o coração do homem, entre a língua da lua-nova e a língua das crianças. eu já recitei catulo com a corda no pescoço, já quebrei o queixo mergulhando de ponta, já torci o nariz pra comer cenoura, já morei na terra dos colibris, já corri nos cânions dos tarahumaras, eu já fui tantas quantas vozes abafadas da américa latina, já fui parra, whitman e um filme do wong kar-wai: e sou nada. memória é, dentre os tantos abismos, o maior deles: uma fugacidade. um multiplicador de possibilidades. os engendramentos verdadeiramente potenciais, paradoxos, impossíveis que nos permitem múltiplos e mútuos. lacunares e embicados pelo futuro, mais reais que nunca.